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Aventura Pedalares na Via da Prata

Sobre a Via da Prata Fotos do Passeio

Para finalizar a época de Verão, alguns elementos do Pedalares mostraram vontade de fazer uma volta maior do que o habitual, fugir um pouco aos passeios de fim-de-semana. Santiago de Compostela foi desde logo acordado como o ponto de chegada. Faltava agora definir o ponto de partida. Depois de ponderadas algumas hipóteses, resolvemos que partiríamos de Chaves, pela Via da Prata, até Santiago de Compostela.

Com algum trabalho de investigação encontramos mapas e relatos de outros aventureiros que já haviam feito o percurso e definimos que o faríamos em dois dias, ou seja, duas etapas com cerca de 105 km cada. Animamo-nos e preparamo-nos (homens e máquinas) para em autonomia (sem carro de apoio) transportar roupa, alguma comida e tudo o que se deve levar para um percurso deste tipo.

No dia 19 de Setembro fomos de carro até Chaves e às 8h30 estávamos a montar as máquinas e a partir. O início foi fácil, seguimos pela estrada nacional até Vila Verde da Raia e logo ali encontramos a primeira indicação do percurso com 232 km. Até Verin rola-se muito bem em percursos essencialmente fora de estrada, com paisagens bonitas entre vinhas. Passamos também por algumas obras de construção de uma estrada que interrompem aqui e ali o percurso original, no entanto há sempre a indicação do percurso a seguir.

Em Verin fomos ao albergue de peregrinos carimbar as cadernetas e numa breve troca de impressões com a pessoa do atendimento, ficamos a saber que iríamos encontrar uma grande dificuldade, passar uma subida longa e de grande inclinação que nos levaria até Santa María da Alberguería, onde em tempos existiu uma pousada para viajeros e um hospital de caridade para peregrinos. Após uma pequena refeição, seguimos rumo a Laza. O percurso (15 km) é totalmente em estrada de alcatrão e sem grandes dificuldades. Depois de Laza, uns 3 ou 4 km, começa então a dificuldade. Entra-se num trilho de monte em que as rampas de elevada inclinação se sucedem e onde a única hipótese de descansar um pouco é parar. São cerca de 5 km com um desnível a rondar os 600 m. Para piorar, há ainda uma zona (curta) com o piso em pedra lascada ligeiramente gasta, onde é impossível subir em cima da bike quando se leva malas de bagagem com 6 kg ou mais. Ainda outra agravante, eram 12h00 e o termómetro marcava 36º.

Passada a dificuldade, chegamos então a Santa María da Alberguería. Aí sentimos que valeu a pena o esforço. É uma aldeia quase fantasma com casas em pedra lindíssimas, algumas quase em ruína, e um bar do outro mundo. O bar, melhor o tasco, tem o tecto coberto de conchas de vieira onde os peregrinos escrevem o nome e a data. O homem que nos atendeu, fazendo parte do bar, também parecia do outro mundo, assim ao jeito Viking. Claro, umas Mahu acompanharam a nossa refeição, completada por um café de cafeteira e pés ao caminho, que é como quem diz rodas a rolar.

Continuando a viagem passamos em Vilar de Barrio, seguimos para Xunqueira de Ambía e daí até Ourense. Por entre todos estes pontos passamos por dezenas de aldeias, num percurso muito variado e essencialmente fora de estrada. Há alguns troços de ligação em estradas de alcatrão mas praticamente sem trânsito automóvel. Atravessa-se também um vale enorme, cruzado por caminhos de acesso aos campos agrícolas com rectas de 3 ou 4km em terra batida, cruzadas por outras rectas do mesmo estilo. Aqui e ali peregrinos pedonais, como caracóis, lá se iam aproximando de Santiago. A aproximação a Ourense é feita pela estrada nacional 535 em cerca de 10 km.

Chegados a Ourense, procuramos o albergue onde fomos muito bem recebidos. Tem boas instalações e havia pouca gente. Depois de um revigorante banho, mais cheirosos, fomos em busca de mais umas Mahu e aproveitamos também para reabastecer de sumos, águas e fruta para o dia seguinte. Depois de uma noite bem dormida, cedo nos levantamos e finalizamos as arrumações. Às 7h20 (de Portugal) iniciamos o percurso do 2º dia. Saindo do centro da cidade e entrando no trilho começa uma grande dificuldade, em que, durante cerca de 1 hora, se tem grandes inclinações e as subidas se sucedem, a vantagem é que o piso é bom, inicialmente em cimento e alcatrão e depois em terra batida, mas rola-se.

Até Cea são 24km e a paisagem continua linda, atravessam-se pontes romanas sobre pequenos rios e mantém-se o aspecto rural. Chegados a Cea foi tempo de tomar um 2º pequeno-almoço, numa praça muito bonita com uma torre magnífica.

Próxima etapa, até Dozón, 14km. Todos contentes seguimos, sem saber que parte destes 14km seriam da pior espécie. Até ao Mosteiro de Oseira rolamos muito bem e ficamos perplexos com a dimensão do mosteiro no meio do nada. Logo, partindo do mosteiro, entra-se num trilho com elevada inclinação, que subimos a pé, a empurrar as bikes. E assim foi durante uns 25 minutos, sem dar descanso. Soubemos depois que o desnível é de 800 metros. Chegados ao topo, continuamos a trilhar caminhos, entre campos e aldeias, com grande dureza e a exigirem muita técnica e uma atenção permanente. Cerca das 12h20 chegamos então a Dozón. Foi altura de fazermos contas aos quilómetros e apercebermo-nos que em 5 horas tinha-mos feito apenas 48 km, e estaríamos agora a cerca de 70km de Santiago. O tempo começava a escassear. Ali almoçamos umas magníficas sandes de presunto e, rodas a rolar.

A etapa agora era de 30 km até Bendoiro. Depois do que passamos, nada era agora tão difícil e logo ao iniciar a etapa apanhamos um estradão a descer em que, a grande velocidade, fizemos uns 3 ou 4km, o que nos levantou a moral. Com pouca estrada e muitos caminhos entre florestas de carvalhos, campos, aldeias e obras de estrada, num constante e desgastante sobe e desce, não era fácil ganhar tempo, mas lá cumprimos mais uma etapa.

Agora eram mais 34 km até Vedra. Neste troço fomos tentando ganhar tempo mas não foi fácil. Uma parte da etapa é já na estrada nacional. E, entre Castrovite e Galegos, há mais uma descida de uns 5km em tapete (estrada nacional) em que sem pedalar se rolava acima dos 50 km/h. Só não sabíamos o que vinha a seguir, algo coisa do género, mas com a inclinação ao contrário. Uma subida de uns 4km depois de passar o rio Ulla. Esta terá sido a pior parte dos dois dias. Com o cansaço acumulado e o adiantar da hora (seriam 17h00). A meio desta subida tivemos de parar, o Litos teve uma quebra de energia. Fizemos então a última refeição, com as últimas barritas que tínhamos, mais uns pães-de-leite que sobraram do 1º pequeno-almoço. Estavamos a 20 km de Santiago. Uma habitante local disse-nos que faltavam 4 subidas. Arrastamo-nos, contanto as subidas, e finalmente via-se a cidade ao longe. Chegamos a Santiago e tiramos a foto de chegada, eram 19h20m. Tínhamos saído de Ourense 12 horas antes. Aventuramo-nos porque não sabíamos ao pormenor a dureza do 2º dia, no entanto percebemos que é possível.

No total o conta-quilómetros marcava 238 km, cumpridos em 7h20+10h38h (17h58).

Agora que conheço o percurso, considero que tivemos alguma sorte, já que não contávamos com tanta dureza fora de estrada e por isso não nos tínhamos preparado para tal. Esta via exige muito das máquinas, e no Inverno há troços que devem estar com muita água e lama, pior ainda. A paisagem é muito mais verde e frondosa e variada que a do caminho português, as aldeias são lindíssimas, pela altura do ano, Setembro, há imensa fruta nas beiras das estradas e caminhos. Cuidado com a água, não aparece tão frequentemente como gostaríamos.

Por mim, estou disposto a repetir.

Luís Capela

Os aventureiros Pedalares:

  • Luis Capela -  Trek 6.5
  • Filipe Moisés -  Specialized Epic
  • Carlos Brandão – (Litos) Marin Nail Trail (semi-rígida)

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Curiosidades:

Este passeio foi realizado nos dias 19 e 20 de Setembro de 2008.

A carrinha que nos levou de Amares a Chaves avariou em Braga na viagem de regresso.

O carro que nos foi buscar a Santiago foi rebocado pela polícia municipal local, porque estava estacionado num parque permitido e até pago, mas que impedia a entrada numa porta de uma habitação a um carrinho de bebé.

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